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19/01/2015
O Censo Religioso e o Protestantismo no Brasil
Consciente de que o assunto é espinhoso, num primeiro momento entende-se que o melhor caminho inicialmente é estabelecer alguns pressupostos conceituais que envolvem o tema a ser discorrido. O assunto desta apresentação, “O protestantismo frente à pentecostalização dos movimentos evangélicos brasileiros”, pode gerar dúvidas, e, por isso, a necessidade de se fazer conceituações preliminares.

Quando falamos de “protestantismo”, queremos mostrar que se deve fazer distinção entre as igrejas chamadas de evangélicas em nosso país. Nossa suspeita é que não se pode com tranquilidade afirmar que algumas igrejas tidas como evangélicas, em especial algumas que mais cresceram, corroboram para o projeto protestante nascido da reforma do século XVI. Talvez não se possa até mesmo afirmar que elas são realmente evangélicas. Preferimos acentuar que parte dessas igrejas é resultante de um processo que há muito tempo está em curso no seio do protestantismo, que consiste na diluição asseverada da teologia oriunda dos reformadores, e no consequente surgimento de variados movimentos com tonalidades difusas, com parcos tons protestantes; que em alguns momentos contradizem os princípios basilares do ´ser protestante`. Chamamos esse fenômeno de "Pentecostalização", algo que teve origem no seio do movimento pentecostal, e que atualmente, devido sua capacidade de tranversalidade, abriga-se nas várias igrejas e denominações que compõem o movimento evangélico no Brasil.

 Diríamos que a pentecostalização, um fenômeno que está varrendo a América Latina, é um movimento híbrido e muito dinâmico, que assumiu como discurso demarcador principal, às vezes inconsciente, a religião como um produto do mercado; fortemente forjador da experimentação religiosa, da busca intensa pela satisfação pessoal, e da conquista de bens financeiros através da relação com Deus/divindade.

A nossa percepção é que o movimento evangélico brasileiro sofre uma acentuada pentecostalização que o tem descaracterizado,  e cada vez mais o mantém distanciado dos ideais dos reformadores protestantes. Parte dele sucumbiu à teologia da prosperidade, inclusive algumas denominações consideradas históricas. Quanto ao movimento pentecostal, o mesmo acontece. Ele parece, em quase sua totalidade, ter deixado de lado a velha compreensão clássica pentecostal de que o mundo é mal, que a salvação se dará no Céu, assumindo este mundo como lugar para “reinar com excelência”, "reinar em vida" com prosperidade financeira e domínio sobre tudo, fruto de uma pretensa relação de fidelidade a Deus nos dízimos e nas vultosas ofertas oferecidas nos rituais de consagração. A escatologia futurista de fuga do mundo, característica ímpar do pentecostalismo clássico foi substituída pela ideia de um futuro bem presente, próspero, que se realiza agora pela troca entre o fiel e o Deus adorado. O mundo, que era considerado do diabo e lugar de sofrimento, passou a ser considerado como lugar que ‘mana leite e mel’, o local da realização das grandes promessas sagradas.

I. A dificuldade histórica do protestantismo no Brasil e o crescimento dos movimentos evangélicos que estão sob o influxo direto da pentecostalização.

Os dados do último Censo apontam para algo que há muito tempo se discute nos círculos teológicos protestantes. O projeto pastoral do protestantismo tradicional ainda tem enormes dificuldades de tocar a realidade brasileira. O modelo de pastoral e de vida propostos pelo protestantismo não conseguiram ainda estabelecer/ construir uma ponte, ou até um bom diálogo com a cultura brasileira. Entende-se que esse é um dos fatores que inibem seu crescimento.

 O protestantismo ainda não se libertou de formas litúrgicas afastadas da vida cotidiana, que pouco ou quase nada reflete a realidade latino-americana. Ele também ainda é enamorado de uma visão teológica exclusivista e preconceituosa em relação às manifestações culturais populares brasileiras.  Sua liturgia distante da realidade o faz ser visto como não necessário para a maioria dos brasileiros, sincrética por natureza, afeita ao mágico, ao maravilhoso e ao extraordinário.

Dos quase 43 milhões de evangélicos, o protestantismo clássico, ou as igrejas de missão não passam de cerca de 4% da população, isto é, cerca de 8 milhões de membros. Se compararmos esse percentual com os dados do Censo anterior, verificaremos que houve um pequeno decréscimo, pois tínhamos 4,1% no Censo de 2000, e agora somos 4% (Censo de 2010). O que se observa é que o programa protestante no Brasil está estagnado em relação ao crescimento da população brasileira; ele ainda está aquém do que é capaz de oferecer ao Brasil.

Diferente do protestantismo clássico, a pentecostalização e a teologia da prosperidade que influenciam e determinam fortemente os caminhos pastorais dos movimentos evangélicos que mais crescem, parece que conseguem responder à demanda presente nos anseios da população mais pobre deste país.  É esse setor que em sua grande maioria compõe e sustenta o crescimento tão expressivo do movimento pentecostal brasileiro.

Deve-se ainda destacar que é esse o movimento evangélico que mais cresce em nosso país, e que, segundo os dados do último Censo, nos próximos anos fará com que o Brasil provavelmente tenha cerca de 40% da população frequentando  uma igreja evangélica.

Inoperante, pesado e distante, e às vezes possuidor de um discurso insensível ao sofrimento e as limitações do humano, o protestantismo histórico não consegue oferecer uma reação satisfatória alternativa aos disparates da pentecostalização.

Em vez disso, o que se observa como elemento altamente agravante é que mesmo algumas igrejas evangélicas de missão, historicamente identificadas com a teologia protestante, foram também atraídas pela pastoral do fácil crescimento numérico presente na ambiência pentecostal brasileira. Entende-se que essa opção pastoral tem descaracterizado identitariamente o protestantismo no Brasil, fazendo- o trilhar por caminhos divergentes da pastoral inicial proposta pelas reformas protestantes dos séculos XVI e XVIII (reforma wesleyana).

Elementos que outrora sofriam severa oposição da cúpula dessas denominações do protestantismo histórico, agora são acolhidos pelos bispos/as, pastores/as sem uma análise crítica persistente e profunda. Movimentos, temas e instrumentos fortemente ligados à teologia da prosperidade e às estratégicas de fácil crescimento numérico, como G12, Igreja com Propósito, Igrejas em Células, Sopro do Espírito, hinódia altamente alienante, Domínio Territorial, Guerra Espiritual, Rituais para Quebra de Maldições, Messianismo Pastoral, Divinização de Símbolos Religiosos que há alguns anos somente estavam presentes nos movimentos pentecostais, agora também fazem parte do repertório de algumas denominações históricas. Talvez isso explique o crescimento diferenciado e grande, percebido no Censo, em algumas dessas igrejas de missão ou históricas. 

O que se percebe é que as igrejas evangélicas de missão ainda que tenham em seus quadros renomados pensadores e lastro teológico histórico com capacidade de propor uma salutar saída para os descaminhos dos movimentos evangélicos brasileiros, não consegue propor um caminho melhor ou até mesmo permanecerem imunes aos efeitos da pentecostalização reinante. Em nossa percepção, elas aderiram e incorporaram, em troca do crescimento rápido, alguns elementos e perspectivas perigosas advindas da teologia da prosperidade. Ainda que estejam crescendo numericamente, estão enfraquecidas, descaracterizadas e distantes de sua origem.

II.Características dos movimentos evangélicos que mais crescem.

Além do exposto, podemos ainda elencar outros elementos considerados danosos pela teologia protestante, que, entretanto, impulsionam o crescimento dos movimentos evangélicos no Brasil. 

Quando se analisa as igrejas evangélicas que mais crescem (pentecostais, neopentecostais, novas igrejas alternativas, e algumas históricas em processo de renovação), percebe-se que elas estão sobre o influxo da pentecostalização, como já afirmado, um processo ruim de barateamento e negação de certos elementos do Evangelho de Jesus, que, por conseguinte, também contradizem alguns princípios caracterizadores/demarcadores da identidade protestante.

O “Deus” que parece estar sendo anunciado em alguns destes movimentos, sublinhados como evangélicos, difere do apresentado por Jesus. Ele mais se assemelha a um ídolo que é movido pelos interesses de seus adoradores, dos que lhe oferecem grandes sacrifícios. Um deus que está pronto para satisfazer as demandas de prazer dos frequentadores dos cultos, desde que algo especial lhe seja oferecido. Salienta-se que a partir desta perspectiva, a concepção sobre Deus se aproxima da ideia de  um produto que pode ser adquirido.

Um dos problemas desta visão totalmente turva sobre o verdadeiro Deus anunciado por Jesus, é que num momento mais adiante, quando a sociedade atingir uma condição de riqueza econômica satisfatória, essa religião e o seu ‘deus’ anunciado facilmente poderão ser substituídos por um produto que melhor atenda às necessidades da sociedade, e ainda por cima mais barato. O fato é, “o sagrado está cada vez mais comercializado e dessacralizado. E o brasileiro está cada vez mais desencantado”.

Além dos elementos já elencados, nota-se o forte ressurgimento do fundamentalismo religioso, acompanhado de um agressivo espírito antiecumênico, e uma acentuada tendência a ver o diferente como um inimigo que precisa ser vencido a todo custo. Sendo assim, para uma enorme parcela dos movimentos evangélicos que mais crescem, o catolicismo assim como as  expressões religiosas não cristãs são vistas como obstáculos a serem vencidos. Até mesmo os protestantes históricos são tidos, por parte destes movimentos, como igrejas que precisam de “conversão”.

Apesar de serem chamadas de evangélicas, essas igrejas fundamentalistas, em especial as pentecostais, tendem a rejeitar o batismo e os cultos que acontecem nas outras igrejas evangélicas que não aderiram ou não cerram fileiras com seus propósitos; que não se subjugaram à pentecostalização. Em sua grande maioria, rejeitam a ideia da pluralidade religiosa, recusando-se a estabelecer diálogo com outras expressões religiosas que não comungam seus princípios doutrinários. Crê-se que elas crescem por atenderem a um tipo de ser humano ainda afeito ao mágico, ao misterioso, que acredita fortemente na existência de um mundo dominado pelo bem e o mal,  poderes que se equiparam, que vivem em guerra constante.

III. Apontamentos finais.

Como apontamentos finais, salientamos que há alguns detalhes revelados no último Censo que devem ter tomados com atenção pelas igrejas evangélicas, protestantes ou não. Os dados parecem demonstrar que estamos próximos de um possível esgotamento das propostas destes modelos pastorais que mais crescem atualmente. O Censo revela que a última década foi a de menor crescimento percentual obtido pelo movimento evangélico no Brasil, fortemente sob o influxo da pentecostalização. Nas décadas passadas, o índice de crescimento percentual dos evangélicos, que girava entre 7 a 8% ao ano, caiu para 4,79%. 
 
Também revelador e preocupante, que corrobora para a tese de um possível esgotamento deste atual modelo de sucesso, é o crescimento assustador daqueles que se identificaram como evangélicos sem igrejas. No Censo de 2000, eles formavam um contingente com aproximadamente 1% (1, 7 milhões) da população, e hoje são 9,2 milhões. Isso corresponde a 4,8 % da população, um número bem maior que a quantidade dos membros de todas as igrejas evangélicas históricas e de missão no país (7,6 milhões).

Outro detalhe importante está relacionado à presença com maior intensidade de alguns movimentos religiosos orientais. O Censo mostra um crescimento, ainda que pequeno, entretanto mais visível nos quadros estatísticos, de algumas religiões orientais, como o budismo, o islamismo, dentre outros, que outrora pouco ou nada influenciavam a ambiência religiosa no Brasil. O que se percebe com nitidez é que brasileiro está mais afeito à experimentação múltipla, e à livre escolha religiosa. Devido a esses elementos citados, algumas perguntas se sobressaem. Dentre elas, pelo menos uma precisa ser respondida com urgência: Será que é consistente relacionar o crescimento das religiões orientais e o crescente índice de evangélicos sem igrejas com tese de esgotamento dos modelos pastorais já mencionados? 

Diante do exposto, algumas coisas precisam ser levadas em conta pelo protestantismo sério e consciente. Primeiro, faz-se necessário perceber que a sociedade está em transição. Ela é avessa aos fundamentalismos religiosos, e cada vez mais plural, e em breve fornecerá pouco espaço para os movimentos religiosos obtusos, fechados, e inabilitados para dialogar com o ser humano pós-moderno que está surgindo.

Segundo, é urgente que se faça uma reforma litúrgica no seio do protestantismo histórico,  que atualize a sua pregação e o seu culto, e que o faça se aproximar mais da cultura popular brasileira; que o  leve a romper de uma vez por toda com a fixação da demoninazação das manifestações culturais brasileira, principalmente dos traços afros inerente ao jeito de ser brasileiro. Além disso, ele precisa dar mais espaço para o laicato, deixando de ser clericalista; necessita ser menos pesado, mais aberto à experiência religiosa/carismática ( para a ação cheia de afetividade e graça do Espírito Santo).

Como ponto animador, deve-se mencionar que o último Censo destaca um dado muito alentador para o protestantismo sério.  Há uma enorme parcela da sociedade que mesmo que queira experimentar o novo, no tocante ao fato religioso, não abre mão da tradição, da autenticidade, do confiável. Ela é composta de brasileiros que suspeitam do barateamento da religião, e, por conseguinte, estão à procura de um porto seguro, onde os ventos são mais serenos. Logo, cremos que para encontrar o caminho do crescimento maior, o protestantismo brasileiro não deve se deixar ser atraído pelos encantos da pentecostalização, sob pena de ficar recém de uma religiosidade difusa, e ser considerado incapaz de dialogar com momento histórico que está se descortinando.

Por último, salientamos que o decrescimento da Universal do Reino Deus e o pouco crescimento de algumas grandes igrejas pentecostais (Deus é amor, O Brasil para Cristo, Igreja da Graça, etc), sob o influxo da pentecostalização, são sinais do esgotamento desse projeto em curso, reforçam a tese da existência de uma séria crise nestes modelos pastorais, e alimentam a esperança que o protestantismo ainda tem uma grande contribuição para dar ao momento histórico que se surgirá após esse tempo de transição.



Rev. Marco Antonio de Oliveira
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